8.21.2010

Sequências da Terra, por Amadeu Baptista




Ele ofereceu-lhe um pedaço de terra
quando se conheceram.

Quando deram o primeiro beijo
ela engoliu uma parte desse pedaço
de terra

e quando se casaram ela engoliu
a parte restante.

Nove meses depois, quando ela
pariu o primeiro filho

saiu-lhe pela vulva a terra
que ele lhe tinha dado
e que ela tinha comido.

por duas vezes,
em duas partes iguais.

E assim foi que,
quando o filho de ambos
chorou pela primeira vez,

se levantou da terra
uma labareda infinita.

8.07.2010

por António Franco Alexandre




Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos,
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e me abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes.
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.

7.14.2010

Desistência



Não percebes a tradução que, para uma Língua longínqua, fizeram do teu pedido de socorro. Estás frente a ela como frente a palavras de um outro. E, no entanto, essas palavras – na língua original, na tua – eram as mais capazes de te colocar novamente no mundo. Sem reconheceres já sequer o tom que gritaste, e enojado com o facto de terem traduzido o teu pedido de socorro para uma Língua desconhecida – eis que desistes e, finalmente, aceitas, com bons modos, a impossibilidade de alguém te ouvir.

"Breves notas sobre o medo", Gonçalo M. Tavares

7.11.2010

É tão fácil dizer que saem dos olhos das mulheres andorinhas verdes, por José Gomes Ferreira




É tão fácil dizer que saem dos olhos das mulheres andorinhas verdes
ou chamar à lua a caveira voada da flâmula dum navio pirata!

Mas a poesia - onde está?

A poesia que transforma de repente a música em lâmina
para romper a noite até à solidão dos archotes
que escurecem mais e mais
este abismo absurdo
sem astros de céu vivo
onde as pedras apodrecem
e as andorinha verdes não saem dos olhos das mulheres?

Mas a poesia - onde está?

Essa esperança convicta
de teimar na certeza do nada
com explicações
de papoilas
e esqueletos a abraçarem-se
no amor final já sem sentido de bandeiras?

Sim. Onde está?

Que palavra abre
para além da luz secreta
que os dedos dos mortos acendem no perfume das flores?

Sim. Onde está?

- Poesia de rasgar pedras.
Poesia da solidão vencida.
Poesia das pombas assassinadas.
Poesia dos homens sem morte.

7.10.2010

A visita do amor que não virá, por João Rasteiro

Acerca do lírico amor obscuro
de mim o tempo acúleo cogitava
a morte inclinada em contrição
na geometria mais invisível ele
o rosto oxidado na cegueira fincada
a cítara dos acesos sexos lascados
os clarões do crime nas máscaras
bebendo a luz dos prodígios em bocas
líquidas sementes do cordeiro de deus
sangram os espinhos da ácida língua.

Não há lugares profusos nos alfabetos
a paisagem dos acasos - nos corações
transbordam vertiginosas superfícies
as tecedeiras sobre o linho respirando
inversas – o âmago do mistério da voz.

- Um dia alguém terá nos dentes lágrimas vivas.

7.01.2010

por Luíza Neto Jorge




I

Despertei
com o pássaro longínquo
um rumor de fome
no seu olho fito

Atirou-se a pique
sobre a crosta da terra
a picar no mais tenro
o que eu nuca vi nem
me apalpei

Carne nao era
talvez fosse
a pedra de toque
do meu sono

Soltando as asas
desde a
serra
veio voando
direito
à varanda onde
pela manhã passeiam
pombos

Atirou-se a pique
com o seu olho louco
a descobrir
o que eu esquecia

Carne seria
lôbrega ou viva
hélice de sol puro

6.25.2010

no more tears, por adília lopes


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar

6.20.2010

Intimidade


No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

6.19.2010

doce doce doce


condolências à passarola

6.17.2010

por Mário Cesariny




Dir-te-ei que os meus dias foram os teus dias o teu leito o meu leito
o teu corpo este mar
dir-te-ei que há uma rosa oculta num jardim e que ela é uma e
outra como nós fomos
estas pétalas são os teus olhos fechados
são as ondas por onde sopra o vento e nasce a cor da aurora e o grito
gelado das coisas

Dir-te-ei foi agora
cintilante mortal contado a fogo
e breve
rigoroso