3.22.2010




quero dizer-te: não morras.

Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.


António Franco Alexandre
( imagem do filme " The Reader " )

3.21.2010

pintar fora da margem

Sejamos modernos, sejamos radicais.
Como bem sabes não somos eternos.
E além do mais eu não digo nada aos teus pais.

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O nosso amor parecia uma história de fadas
o encanto girava que nem em quatro rodas
depois as rodas deram umas guinadas
e descambou tudo num conto de fodas.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues
in Dióspiro
( depois da fruição devida destes poemas, só me ocorre dizer que me pesa aos ombros a leveza destes 17 anos - maravilha ! )

Dia da Poesia

E fosse eu
A sede eterna de te ter
Pudesse eu esquecer
Como arde o amor no seu apogeu

E pudesse eu
Deixar-te morrer
Não levasses em ti o ser
Do que existe e fazes teu

Ana Cardoso, talvez por ser dia da poesia


Na eventualidade de ter escapado a alguém, hoje é Dia da Poesia, situação que não poderia ser ignorada por um projecto como o nosso.
Assim, deixo um poema escrito por mim, ontem (diz que é fresquinho), como quem deixa aqui a ideia de que é bonito escrever, e partilhar a poesia.

3.20.2010

é Primavera: que queime




As flores vinham nela e era primavera
mas tanto a nomeei e tanto repeti
erros numa estratégia imprópria para ela
tamanho amor expus que cedo a consumi



Ruy Belo

Despeço-me da Terra da Alegria

3.18.2010


Toca-me o sangue. Peço-te que me toques

o sangue. Escuta este rumor
dentro do meu peito, esta palavra enlaçada
a uma pedra que arde dentro da terra.


Amadeu Baptista
( fotografia de José d´Almeida e Maria Flores )

3.17.2010

Daniel Maia-Pinto Rodrigues





Perdeste o isqueiro
e estás perturbada
e digamos que tens razão
porque deixaste para trás
qualquer pertence da realidade

Hesitas se hás-de regressar ao seu encontro
mas talvez te percas exactamente aí
ao regressares

Olha melhor as estrelas
é noite
e estamos à ilharga do tempo


em O Afastamento Está Ali Sentado
( foto por Franco Giovanella )

3.12.2010

anunciação

Profetiza-se um encontro delicioso ainda no segundo período na Casa Museu Abel Salazar. Deixem-se salivar !

3.11.2010

janela indiscreta

O jardim que rodeia a casa antiga
é um sobressalto no silêncio
penumbroso da luz. A sombra
das tuas pernas, movendo-se,
desperta-me a boca. Um arbusto que pulsa como um peixe
percorre-me repousadamente.

No limite contemplado das janelas dignas
de oitocentos, a névoa desce com a noite,
estreita o vento na fralda da camisa, frustra
a inquieta adolescência de um rosto impúdico.
Abre janelas ao murmúrio do tempo,
ao vagaroso esvoaçar
do pensamento. Irremediavelmente, a barba cresce
fiel à distância.

Jorge Velhote

3.09.2010

viva ao senhor Luís Viana, a poesia e o ajavardamento agradecem

a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome

Paulo Leminsky

3.02.2010

hoje não é um dia para ser dia, não acham?

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte